Crônica | 65 horas depois

Eu sei, eu vi. As imagens do Ciclone Bomba que rodaram o Brasil são impressionantes. Tatuei na minha mente tudo o que assisti naquela tarde. Na Barra Sul, uma explosão na rede elétrica, acompanhada de gritos de desespero. Em Itajaí, a balsa que tanto usei foi carregada com a força do vento. Em Camboriú, o posto de gasolina simplesmente desabou. Todo esse vendaval chegou a região por volta das 16h15 da última terça-feira provocou o caos. As imagens das câmeras internas da Tv Litoral Panorama que guardo no meu celular me ajudarão a lembrar da força do vento, de mais de 100 quilômetros por hora.

Naquele dia, mais de 1 milhão e 500 mil consumidores ficaram sem energia elétrica, inclusive a emissora. No complexo turístico Cristo Luz, o tapete de mais de 10 metros foi parar no nosso telhado. E as placas de ferro com os horários de atendimento ficaram, para a minha surpresa, no chão. Mesmo sem energia elétrica e com poucos recursos, o trabalho não parou. Junto com a TV Cultura, de São Paulo, fomos a primeira emissora do Brasil a noticiar a passagem do ciclone por Santa Catarina. Que emoção! Depois de tanto trabalho, difícil mesmo foi ir embora, carregando a angústia no peito e desviando de todas as folhagens que caíram no meio da estrada. Era o fim do primeiro dia de recuperação dos estragos.

Acho que só quando amanheceu é que nós demos conta de tudo o que a tempestade fez. Nas ruas, casas destelhadas, estruturas no chão, e muita sujeira. No morro do Cristo Luz, galhos por toda a parte, fios de energia elétrica espalhados e até a antena da TV Divino Pai Eterno se dobrou e ficou totalmente retorcida. Me vi perplexo. Mais um dia sem energia elétrica, trabalhamos para colocar no ar plantões informativos. Graças a igreja Matriz Santa Inês, que nos cedeu uma sala com luz e internet, o Brasil ficou sabendo de tudo o que aconteceu por aqui naquela quarta-feira.

No dia seguinte, quase 48 horas depois do ciclone, o cenário não era muito diferente. 5 mil pessoas ainda estavam sem energia elétrica em todo o município. O frio era cortante, ao ponto de eu não sentir minhas mãos enquanto segurava o microfone. Mesmo cheios de dificuldades,  continuamos trabalhando, produzindo, arrumando. Naquele dia, o estúdio do Muito Mais pra você recebeu sua primeira reunião de pauta e eu, através do meu celular, recebia inúmeras mensagens de telespectadores preocupados com nossa saúde. Mas fiquem tranquilos, está tudo bem.

Somente na sexta é que eu pude entrar na minha sala e ascender a luz. O suco verde, finalmente batido no liquidificador, teve um gosto especial naquela manhã. Gosto de recomeço. 65 horas depois do ocorrido, toda a equipe da TV Litoral Panorama subiu o morro o mais rápido possível para voltar a ativa. Estávamos emocionados, aflitos, querendo abraçar o mundo para compensar a falta dos últimos dias. Agora que está tudo bem, confesso que essa foi a primeira vez que presenciei uma catástrofe tão grande. Mas consegui enxergar nela uma oportunidade de recomeço. Porque de uma coisa eu tenho certeza: se existe um povo guerreiro, que não para lutar, esse povo é o catarinense.

Por Luiz Turati